Encho meu copo, uma dose dupla do meu litro de Jack com uma pedra de gelo, apenas por que pessoalmente a temperatura ambiente da bebida não me agrada muito. Sento em minha sacada e observo o silêncio da noite na cidade. Entre uma estrela e alguns carros, e a ótima companhia que tenho. A minha. E é aqui, neste lugar, que estou conversando com a minha melhor companhia. Eu.
Sim, estou eu comigo mesmo. Talvez para você que também consegue fazer isso (pois infelizmente não acredito que todos consigam ou queiram) imagine outro cenário para este momento. E é tão raro poder realmente estar em nossa companhia. E quando digo isso, não me refiro aos momentos em que estamos sozinhos, por que se você se sente só, não está acompanhado de ninguém, nem de si mesmo.
Mas eu particularmente adoro estes momentos em que tenho um encontro comigo, onde sou puro e simplesmente eu, sem mascaras sociais, sem estaus, sem responsabilidades de qualquer natureza. A unica coisa é estar acompanhado da pessoa que mais me conhece no mundo, eu. E se você não se conhece tão bem, é por que não anda sentando muito para ter uma conversa contigo. Se acaso você lendo até aqui esta imaginando aqueles balancetes que fizemos durante períodos como fim de ano, aniversario, trabalho novo, fim de faculdade...não é ai que quero chegar, isso são apenas momentos em que você acredita ter terminado uma fase e quer criar, ou buscar novos objetivos, mas não necessariamente teve uma conversa com você mesmo.
Pense comigo, não é estranho quando saímos e buscamos respostas de fora, de outras pessoas para nossas indecisões para poder tomar alguma atitude sobre nossos objetivos. Que curso eu faço? Viajo para que destino? Quando é melhor tirar ferias? Será que procuro outro emprego? Será que termino meu relacionamento? Será que dou uma chance e esta nova pessoa?... E lá vai você, sentar com alguém contar SUA versão da história e esperar um bom conselho. Tá certo, calma, não me xinguem tanto. Eu entendo que existem casos que desabafar faz bem, e que principalmente muitos temos dificuldades de ver com os próprios olhos estando "dentro do problema".
Mas agora me respondam, isso não é irônico? Quem conhece mais de você que você mesmo?
Quem sabe todas as coisas que você já viveu? Problemas e abonos, erros e acertos. Quem sabe todos as boas ações e as caridades que você já fez? Quem é que sabe todos os crimes e os pensamentos mais maculados que sua mente tem? Quem é que sabe 'O que você faz quando ninguém te vê fazendo'...?
Não nos enganemos, sabemos quem somos, e onde queremos chegar, temos duvidas as vezes por qual dos tantos caminhos que achamos bons e ruins seguir. Mas a duvida é natural, é sinal que você pensa antes de agir. Mas onde está a resposta se não com a pessoa que mais sabe sobre nós? Você é que conhece bem quem esta atrás das mascaras teatrais da sua vida.
Pode ser aquele momento deitado em uma rede deslumbrado com a visão que tens das estrelas no interior.
Ou a beira de um rio, ouvindo o som da água de uma cachoeira caindo com força nas pedras. Talvez no seu quarto ouvindo aquela musica. Talvez seja pescando. Talvez seja escrevendo. Lendo. Seja tomando banho. Ou correndo. Ou ainda seja até em meio a uma festa cheia de gente ao seu redor, e todos olhando para você que está sem companhia, "sozinho"...mas apenas você, simplesmente você sabe que estás com as duas melhores companhias, seu copo de Jack, e você, curtindo o melhor da festa.
4 comentários:
Respeito e admiração demais por todos os posts, mas com sua licença, meu post favorito até agora. Genial reflexão.
Lua.
Obrigado. Uma das melhores coisas de escrever, é saber que você consegui atingir e se identificar com quem lê. Continue tomando umas doses comigo por aqui.
Sábias palavras! Infelizmente a "irracionalidade" é o que a sociedade vem pregando na vida das pessoas: as coisas chegam mastigadas, é só engolir. É esse o comportamento que a massa espera da massa, o de dizer sim a tudo aquilo que "alguém" prega como certo. E essa adaptação das pessoas é o que faz com que elas não tenham noção de que podem conhecer a si mesmas, elas simplesmente não refletem acerca das coisas. Seguem vivendo aquilo que lhes é dado porque é mais fácil assentir do que franzir o cenho. É mais fácil desfrutar de qualquer companhia, ainda que vazia, do desvendar o verdadeiro eu, assumindo e não se envergonhando das próprias vontades e enfrentando o turbilhão de pensamentos e interrogações que reside no nosso interior. É uma difícil e rara habilidade. Parabéns pelos textos, são ótimos!
Realmente Cinara. É uma habilidade, ou talvez até um caso de sensibilidade rara.
Obrigado. E esteja sempre por ai.
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