terça-feira, 24 de abril de 2012

Canto Para minha Morte

"Começamos a morrer no momento em que nascemos, e o fim é o desfecho do início."




Lembro que assisti algumas imagens do velório do Bussunda. Quando os colegas do Casseta & Paneta deram seus depoimentos. Parecia que a qualquer instante ia estourar uma piada. Estava tudo sério demais, faltava à esculhambação, a zombaria, a desestruturação da cena. Mas nada acontecia ali de risível, era só dor e perplexidade. que é mesmo o que causa em todos que ficam. A verdade é que não havia nada a acrescentar no roteiro, a morte por si só, é uma piada pronta. Morrer é ridículo.

Você combinou de jantar com aquela garota que esta afim, esta em pleno tratamento dentário, tem planos para a semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os E-mails que você ainda não abriu? O livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar a tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram essa ideia. Morrer. A troco de que? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando formulas químicas que não serviram para nada, mas se manteve lá, fez provas, e foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o folego, mas não desistiu.

Passou a madrugada sem dormir para estudar para o vestibular mesmo sem ter certeza o que gostaria de fazer da vida, cheio de duvidas quanto a profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente. De uma hora para outra tudo isso termina em uma colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinquente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um clichê. Obriga você sair do melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez a sua musica preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas, sua toalha úmida no varal e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, apagar as pistas que você deixou uma vida inteira.

Logo você que sempre dizia: Das minhas coisas cuido eu.

Que pegadinha macabra: Você sai sem tomar café e derrepente nem almoça, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que queria dizer. Não faz exames médicos, bebe de tudo, curte costelas gordas e muheres magras, e morre em um sábado pela manhã. Se faz check-up regularmente e não tem vicios, morre do mesmo jeito.
Isso é para ser levado a sério?

Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem vindo. Já não há muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia. Sem falar que a quase nada guardado nas gavetas. Ok hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo? Antes de viver até a rapa? Não se faz.

Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer sim é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria prima das piadas.

Só que esta não tem graça.



Pedro Bial

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