Vejo no telejornal uma reportagem interessante. Mas é claro que não vou contá-la de imediato. Vou, primeiro, dar algumas voltas indispensáveis para só depois contar da tal reportagem. Antes, preciso dizer que costumo falar a quem me ouve que
não cometa a bobagem de guardar no cofre do futuro os seus sonhos na vida.
Explico.
Vivemos numa sociedade interesseira, onde não prepondera a busca pela realização pessoal, pela felicidade. O que prevalece, isso sim, é a busca pelo dinheiro, pelo ter. Em razão disso, as famílias vivem enchendo os ouvidos dos filhos para que tratem de fazer um vestibular para alguma atividade que pague bem, que dê bom dinheiro, ainda que não realize, pessoalmente, a felicidade do jovem. Importa ter, não importa ser.
E muitos jovens caem nessa arapuca da infelicidade, silenciam seus sonhos, seus desejos, suas aptidões mais imediatas, para sair por aí a exibir diplomas inúteis e realizar trabalhos de que não gostam, tudo pelo dinheiro.
E, com isso, deixam para o futuro, para depois da aposentadoria, só aí, fazer finalmente aquilo de que mais gostam. É o tal cofre do futuro.
Só que quando esse cofre for aberto, já nos adiantados da vida, ele estará sem cor, sem graça, murcho, morto... É tarde. Melhor é casar cedo na vida, com o trabalho, com a profissão que é a nossa paixão. E todos temos uma dessas paixões. É tolice dizer que o jovem não sabe de sua vocação. Sabe sim: ele fica é com medo de revelá-la aos pais ou de ser, mais tarde, chamado de trouxa, de pobre, etc, etc.
Agora digo o que ouvi e vi no telejornal Hoje. Foram "velhas" senhoras, idosas mesmo, tirando a carteira de motorista pela primeira vez, velhas, bem velhas. Por que tão tarde? Porque foram casadas durante muito tempo e os maridos não lhes deixavam dirigir, os "machinhos".
Mas agora, viúvas, livres e soltas para viver, liberadas para a vida, vão em busca da carta de motorista. É isso. Essas senhoras ficaram quietas durante muito tempo, com seus sonhos e aptidões guardados no cofre do futuro, não digo que esperando pela morte do marido, mas ganhando a liberdade após essa morte.
Que triste. Mas é, ainda hoje, um caso comum. Muitos maridos até deixam as mulheres dirigir, mas não deixam muitas outras coisas... E elas concordam, silenciam, não reagem. A esperança dessas mulheres é a viuvez. Sinto muito, é duro dizer, mas é isso e é verdade.
Você ai, por suposto, não tem nenhum sonho guardado no cofre do futuro, pois não? E aquele Whisky que você adora tomar, mas guarda ai na estante esperando uma ocasião especial? Cuidado, pode acabar pelos outros bebe-lo, a ocasião especial ser sua ausência...