quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Garrafa pela metade

Meu irmão e um amigo abrem uma garrafa de uma bebida qualquer, na noite onde vêem seu time jogar, uma tradição para os dois. Logo na manhã seguinte, um dia que seria como outro qualquer. Seria, não fosse um carro apressado e desatento que acaba nesse momento interrompendo essa velha tradição dos dois torcedores. Fica no balcão a garrafa, com algumas doses que sobraram da noite anterior, junto as tantas lembranças das derrotas e das vitórias que ambos cantaram e gritaram juntos. Da amizade eternizada nos últimos goles.

Por isso eu prefiro a garrafa que está pela metade. A lacrada traz o tão esperado sabor que encontrará minha boca, o amargo que me dá prazer e me satisfaz. Mas ela não tem uma coisa, algo que torna o beber tão complexo e importante, falta à garrafa lacrada boas histórias, talvez até as ruins, mas nela ficam cravejadas. E como eu já disse uma vez, não se deve começar uma história, sem terminar outra.

A metade vazia da garrafa é preenchida por uma gama de acontecimentos, risadas, velhos e novos amigos, paqueras, mentiras, foras, sexo. E é por isso que ela tem mais valor, quanto menos bebida tem em uma garrafa, mais vida ela tem. Dentro da garrafa se misturam memórias e álcool e por isso que às vezes perdemos um pouco, dos dois. Por vezes esquecemos o que aconteceu, se deixamos cair o copo ou não, quanto falamos enquanto bebemos, mas a garrafa sabe.

Ah, se as garrafas pudessem falar! Se algum geniozinho inventasse uma forma delas nos relatarem o que aconteceu. Eu acharia tantas carteiras perdidas, números de celulares não anotados, descobriria tantas mentiras sobre as “quase modelos da Victoria´s Secret” que meus amigos ficavam. Seria engraçado desmascará-los com os depoimentos da garrafa, porém, ficaria em segredo, somente um motivo para eu sacanear, não entregaria meus amigos por aí. Se esquecêssemos do que aconteceu, bastava perguntar à garrafa e ela iria contar tudo.

Contar tudo. Isso também poderia ser um perigo. E se as mulheres ficassem melhores amigas das garrafas? Totalmente improvável. Quando o seu Geraldo acordasse, a dona Ana já saberia de tudo. Não teve reunião, happy hour com os investidores japoneses é o caralho e quem é Cláudia? Até o pobre Geraldo conseguir reunir imaginação para explicar tudo, a garrafa já teria arruinado seu casamento. Pensando bem, as coisas como são estão perfeitas. Um bom whisky, algumas memórias e a garrafa pela metade, calada.

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