Por isso eu prefiro a garrafa que está pela metade. A lacrada traz o tão esperado sabor que encontrará minha boca, o amargo que me dá prazer e me satisfaz. Mas ela não tem uma coisa, algo que torna o beber tão complexo e importante, falta à garrafa lacrada boas histórias, talvez até as ruins, mas nela ficam cravejadas. E como eu já disse uma vez, não se deve começar uma história, sem terminar outra.
A metade vazia da garrafa é preenchida por uma gama de acontecimentos, risadas, velhos e novos amigos, paqueras, mentiras, foras, sexo. E é por isso que ela tem mais valor, quanto menos bebida tem em uma garrafa, mais vida ela tem. Dentro da garrafa se misturam memórias e álcool e por isso que às vezes perdemos um pouco, dos dois. Por vezes esquecemos o que aconteceu, se deixamos cair o copo ou não, quanto falamos enquanto bebemos, mas a garrafa sabe.
Ah, se as garrafas pudessem falar! Se algum geniozinho inventasse uma forma delas nos relatarem o que aconteceu. Eu acharia tantas carteiras perdidas, números de celulares não anotados, descobriria tantas mentiras sobre as “quase modelos da Victoria´s Secret” que meus amigos ficavam. Seria engraçado desmascará-los com os depoimentos da garrafa, porém, ficaria em segredo, somente um motivo para eu sacanear, não entregaria meus amigos por aí. Se esquecêssemos do que aconteceu, bastava perguntar à garrafa e ela iria contar tudo.
Contar tudo. Isso também poderia ser um perigo. E se as mulheres ficassem melhores amigas das garrafas?
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